
As grelhas do fogão Brastemp Clean: o arredondado dos arames não acomoda panelas de fundo abaulado sobre as mesmas.
Primeiro, a historinha: meu pai decidiu que queria trocar seu fogão velho por um novo – de preferência em inox. Ele mora com meu irmão, logo, ele (o irmão), foi verificar o que havia no mercado para comprar. A ideia era de um fogão simples: nada de “fogão gourmet“, último tipo, com gadgets complicados, etc. e tal. Meu pai é um senhor de 79 anos, cozinha coisas simples, faz um café bom, um ótimo arroz e um “ensopadinho” para ele comer. Não gosta de empregada todos os dias, portanto, o fogão deve ser adequado a ele. Um fogão classe média – ou até mesmo “classe C”, a famosa e venerada por todos os fabricantes no país atualmente.
Achado o fogão, ambos foram vê-lo e gostaram. A compra foi feita, entrega e instalação idem, tudo normal. Daí que papai começa a usar o fogão, um Brastemp Clean, e o problema começa: as grelhas, agora individuais, são muito altas em relação à mesa do fogão. E pior que isso: as panelas “dançam” sobre as grelhas, o que causa apreensão e medo mesmo com a segurança de se cozinhar em cima de algo assim.
Fui dar uma olhada e, a princípio, as grelhas me pareceram ótimas. Mas é verdade: não se pode usar panelas de alumínio, velhas, usadas, e com seu fundo já abaulado pelo uso. As grelhas, em arame arredondado, propagandeadas como “mais seguras” por acomodarem melhor as panelas (
), na verdade não acomodam nada: não há um bom contato entre o fundo de uma panela abaulada e a tal grelha e as panelas “flutuam”, a sensação é esta.

O manual que informa (após a compra): só panelas de fundo plano devem ser utilizadas com o equipamento. Clique para ver maior.
Uma parte da “charada” eu saquei: o tal arame arredondado não é um bom material. Não há atrito do revestimento dele com o fundo das panelas, mais um motivo para que elas fiquem “soltas”. E o “arredondado” das grelhas não segura mesmo: o ideal, pelo que observei, é uma grelha em metal com formato chato, justamente para aumentar o contato e o atrito com o fundo das panelas. O fogão “Gourmand” da própria Brastemp tem grelha em barra chata de ferro fundido, e com design que apoia melhor as panelas. A impressão que dá é que o fogão de luxo tem, sim, uma boa grelha com requisitos de segurança. O fogão da classe C, não. ![]()
Logo após minhas primeiras reclamações sobre a grelha do fogão em meu Facebook e Twitter pessoal, meu irmão me alertou para o fato de que, no manual do fogão, está lá escrito que só se deve cozinhar nele com panelas de fundo reto. Achei uma loucura tal coisa pois, quando a gente compra um fogão novo, não pensa que vai ter que mudar todas as panelas da casa para utilizá-lo. Mas está lá registrado e, sendo assim, a empresa se isenta de possíveis acidentes com panelas que não tenham fundo plano. Acidente este que já ocorreu na casa de meu pai, com a empregada: nem vou dar destaque a este fato pois sei que ela não estava usando o fogão de forma apropriada – estava usando dois queimadores ao mesmo tempo – mas o fato é que, se as grelhas tivessem um pouquinho mais de atrito, talvez não tivesse acontecido… ![]()
E se o problema fosse apenas as tais panelas, até que o caso estaria “solucionado”: pessimamente solucionado pois eu acho que uma informação destas deve ser dada ANTES da compra de um produto, não depois, através de um manual. Mas não: eu já testei o tal fogão com panelas de fundo plano – afinal de contas, ainda há algumas panelas novas na cozinha de meu pai. Falsa esperança: ao mexer um creme, é preciso segurar no cabo da panela pois realmente ela não se apoia sobre a grelha.
Eu fico triste com tudo isso. Sei que temos ótimos designers de produto no país e acredito que a equipe da Brastemp seja uma boa equipe. Só que fico pensando no quanto este fogão foi testado pra valer antes de vir a público. Será que colocaram a “dona Maria”, a doceira, a quituteira, para experimentá-lo antes do lançamento? Ou uma senhora que trabalha fora e tem filhos, e que já chega em casa tarde e cansada para fazer um jantar? Ou alguém que faça e venda “quentinhas”? A isso se chama beta tester e em informática é muito comum. Porque não pedir o auxílio do consumidor antes de se lançar um produto? Por melhores designers que sejamos, sempre temos a aprender…
Fico imaginando se a equipe que desenvolveu o produto o testou com aquelas lindas panelas em ferro, super gourmet, que só pelo peso já se fixam sobre qualquer superfície. Ou com panelas em inox de fundo triplo, igualmente pesadas, que também devem ter ficado estáveis sobre as tais grelhas. Não servem para o caso: um senhor idoso como meu pai não vai gostar de panelas pesadas. Ele quer uma panela fácil, de alumínio mesmo. E um fogão seguro para usar.
Será que esperar que o consumidor se adeque às “exigências” de um produto é o caminho futuro do design? Não creio e sou partidária exatamente do contrário: estudar o dia a dia e as atividades dos seres humanos, desenvolvendo produtos adequados, com qualidade, bonitos e confortáveis pra mim é o bom design. Também não acredito que o design deva ser reservado a quem pode pagar. Não acredito que a grelha em ferro fundido do fogão mais caro da Brastemp seja a certa e que os modelos mais baratos devam seguir para as lojas “com o que dá para vender”. Me recuso a crer nisso.
Faço este post pois sou muito crítica e li noutro dia que os mais críticos no fundo são os mais românticos e os que acreditam que as coisas podem ser melhores. Nunca pensei neste aspecto da minha crítica ácida, mas acho que pode ser por aí. Eu acredito que as coisas podem sim, ser modificadas para melhor, sempre! Não quero um fogão novo, gostaria apenas que houvesse uma alternativa de grelha para que a comprássemos. Gostaria também de ver a Brastemp se movimentando para repensar esta grelha que, segundo um funcionário de uma assistência técnica – que esteve vendo o fogão por outro motivo, não resolvido, o que mais uma vez decepcionou… – disse foi mudada pois a anterior “gerava muitas reclamações”… ![]()
No momento, só posso consolar meu pobre pai que não se cansa de dizer:
“- Mas é um Brastemp! Imagina se fosse outro?…”
Meu pai ainda acredita no marketing violento que as marcas fazem na TV… ![]()
PS 1: contei um pedacinho do caso no meu Facebook pessoal e no meu Twitter. O pessoal do Twitter da Brastemp pediu que eu enviasse um telefone de contato para que eles “ajudassem”. Escrevo este post pois aqui conto toda a história, e eles ficam com a palavra. Sei que ela virá em forma de “humildes desculpas”, o que não resolve nada. Mas, sei que é o que receberei, já me conformo.
PS 2: um alerta: já me disseram que outros fabricantes estão usando o mesmo tipo de grelha. Cuidado, pois!
PS 3 : já vi que o Inmetro está iniciando um estudo para certificação das panelas de alumínio. Ok, ótima ideia. Mas será que o governo pensa que, em certificando panelas, todo mundo vai jogar fora as suas antigas e comprar novas, na hora em que a norma for publicada? É uma loucura igual à questão das novas tomadas: quem, em sã consciência, tem dinheiro para trocar tudo pelo novo padrão? Mais um desserviço prestado à nação ou resultado de lobby de fabricantes de panelas? ![]()
Eu já escrevi para a Brastemp e a resposta foi que iriam passar para o departamento técnico.Alem desse erro o fogão tem varios outros:o timer é tão baixo que não se houve mesmo perto; o queimador grande para fritura fica na parte do fundo do fogão e não se pode usar os queimadores da frente quando se frita algo. Creio que os projetistas NÃO testam ou não sabem cozinhar. A Brastemp desqualifica as sugestões!! E olhe que alem de cozinhar bem eu sou arquiteta!
Olá Sonia, obrigada pelo comentário. O fogão de meu pai é de quatro bocas e nao tem timer, mas já vi que os defeitos da linha (sejam de fabricação ou de design) são inúmeros. Estou decepcionada com a Brastemp e vejo que a disposição da empresa não é mesmo de melhoria.
Abs!
Olá Sônia, sou designer de interiores e gostei muito do seu desabafo. Terei o cuidado, a partir de agora, de não especificar o uso destes fogões aos meus clientes. Cordialmente, Claudia.
Maria Alice, excelente a sua análise do problema com o fogão Brastemp. Muito útil para os designers e executivos envolvidos com este tipo de produto. Ás vezes a urgência de lançamento de um produto pode ocasionar estes cochilos nestes profissionais, mas são comentários como o seu que reestabelecem a ordem. Designer, infelizmente, também erra!!!
Olá Professor Freddy, fiquei feliz e surpresa em receber seu comentário. Triste que alguns consumidores tenham que “pagar” por um problema de projeto de uma empresa. O que eu realmente espero é que esta empresa – e todas as outras que saibam do caso – possam a cada dia mais perceber que não se deve lançar um produto sem testes bem feitos – de preferência por quem não os conhece.
Um abraço!
Que bom que li isso. Estou trocando meu fogão e ainda não decide por qual irei optar. Não tinha pensado em nenhum desses detalhes. Foi muito útil para mim, pois agora vou pensar em cada detalhe. Obrigada!
Beijos,
Lori
Oi Lori, é isso mesmo: cuidado na escolha do próximo!
Bjs!
Oi Maria Alice
Brastemp definitivamente é uma marca que não entra mais na minha casa. Ficamos discutindo com eles por quase 5 anos para provar (e conseguimos) um vício oculto no conjunto freezer/geladeira e foi uma dor de cabeça que não gosto nem de lembrar. Minha cunhada com o mesmo problema no mesmo conjunto optou por jogar fora e comprar outro (eu não aceito esse tipo de coisa!).
Sobre fogões, acabei de substituir um GE por outro GE gourmet pois as peças para o conserto custavam mais que um fogão novo. E a novidade: não achei NENHUM cooktop sem as tais grelhas e mesmo em panelas novinhas de fundo plano MORRO de medo pois elas ficam sambando nas grelhas. Um perigo a mais prá quem tem criança em casa.
Beijão
Olá Maria Alice,
Pelo visto os eletrodomésticos brasileiros estão melhorando no design e piorando muito na qualidade.
Comprei um “super” fogão Electrolux com duplo forno sendo um elétrico e um a gás. O elétrico é muito fraco, demora para esquentar e o painel digital vive travando. Preciso desligar da tomada para ele destravar!! Já cansei de falar com a autorizada que diz que não detecta problema algum… E a Electrolux manda falar com a autorizada!
Claudia
É Esther, estamos mesmo “lascados” como consumidores. O poder dessas empresas é muito grande e uma simples peça – ou “mau humor” de Cliente – não faz um arranhão em sua imagem. Me decepcionei com a Brastemp pois eles nem ao menos registraram as tais “desculpas” que eu esperava. De fato, foi só pra “inglês ver”: no Twitter, dizem que querem ajudar. Na realidade, não fazem nada, deixa o consumidor reclamar…
E, de fato, já fiz uma pesquisa informal sobre cooktops e fogões mais modernos e notei que as grelhas não são nada “amigáveis”. Mesmo panelas de fundo chato “sambam” sobre as mesmas e parece que é o novo padrão do mercado! Inacreditável! Em casa de criança, eu nem sei como deve ser cozinhar assim…
Beijo!
Olá Claudia,
Foi a sensação que tive ao ler relatos como o seu e de outros leitores aqui no blog e também fora daqui. “Beleza não põe mesa”, já dizia o ditado antigo e parece que as empresas esqueceram disso: produto bonito, com design, vende. Mas se não tem qualidade, aos poucos cai no descrédito. É muito complicado conviver com eletros que não nos satisfazem e as empresa agem como se nós é que tivéssemos que nos adaptar aos mal feitos deles. É um contra senso total!
Abs!
Costumo pesquisar produtos antes de adquirir. Agradeço muito as informações fornecidas, pois estou à procura de um novo fogão. Acredito que se ao menos 60% dos consumidores tivessem o hábito de verificar as avaliações de quem já “entrou em fria”, com qualquer produto ou serviço adquirido, as grandes empresas estariam tomando muito cuidado com a satisfação do consumidor e, nós temos este poder nas mãos, basta compartilhar experiências e obteremos respostas.
Olá Pêdra, obrigada pela visita e pelo comentário. Tem toda razão: a vontade de comprar é tão grande que a gente não para pra saber detalhes importantes sobre o objeto do desejo. Tomara que você encontre um belo fogão para você!
Abs!