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Entrevistando Marcelo Ligieri – parte I

Eu gosto de entrevistar gente pouco conhecida que me diz algo novo. Também gosto de falar com conhecidos com quem gostaria de conversar por horas e horas e horas e, claro, não é possível. Mas estes normalmente são muito requisitados pelos grandes veículos e são sempre entrevistados. Mas Marcelo Ligieri ainda não. E friso este “ainda” na esperança de que o seja muito. Arquiteto por formação e designer de primeira linha por opção, o tímido mineiro vem amealhando prêmios importantes aqui e ali – já possui três IF Design Award, dois Brasil Design Award e um Prêmio Design Museu da Casa Brasileira… – estranhamente não sabia muito sobre ele até que eu mesma tive que ser ousada o suficiente para me apresentar, com o fabuloso título de “editora do blog Casa com Design” e pedir para entrevistá-lo eu mesma. Quem é o designer que cria tantas peças absolutamente lindas, dignas do melhor do design, com traço e jeito italiano, aqui mesmo no Brasil? O que pensa, como pensa, como trabalha? Tenho certeza que minhas perguntas foram de simples blogueira e não de jornalista tarimbado como Ligieri merece. Mais de fã e absolutamente apaixonada por suas criações e muito curiosa por saber que tipo de pensamento flui na mente de onde saem aquelas cadeiras e poltronas, mesas e bancos, tão belos e certinhos, além é claro de como se formou a pessoa que as cria. Bem, vamos ao papo e também checar algumas das belezas da Doimo, onde Ligieri é diretor de criação, que ninguém é de ferro…
Nota: dividi em dois posts pois, apesar de ter sido por e-mail, a conversa foi longa, vocês podem imaginar. 

1 – Gostaria de começar conhecendo um pouco mais sobre você: como foi o menino Marcelo Ligieri? Já pensava em ser arquiteto, engenheiro ou designer?

Mineiro de Belo Horizonte, sempre fui um menino introspectivo e observador, meus afazeres preferidos eram enciclopédia, caderno de desenho e brinquedos de montar, não jogo nada que tenha uma bola, os afazeres com criatividade eram mais interessantes.
Sou filho de arquiteto isso me direcionou para a arquitetura, não imaginava que um dia chegaria ao design.

Simples e elegantíssima, “Tecno” foi premiada com o iF Design e com o Brasil Design Award em 2015.

Simples e elegantíssima, “Tecno” foi premiada com o iF Design e com o Brasil Design Award em 2015.

2 – Fale um pouco sobre sua família, os mais próximos que conviveram em sua infância/juventude, suas brincadeiras e aspirações dessa época.

Pai arquiteto, mãe artista plástica, meu único irmão trabalha no setor de desenvolvimento de uma multinacional de computação/informática. Cresci entre desenhos, projetos e arte.

3 – Como foi seu “plano de estudos” do segundo grau para frente? Você logo entrou para a faculdade de arquitetura ou como tudo aconteceu?

Na escola era um aluno meio malandro, mas nunca fui reprovado: na hora limite “me virava” e terminava tudo bem. Sempre muito “aéreo”, observando tudo ao mesmo tempo, meu poder de concentração em algumas exposições é bem baixo, as imagens sempre tiveram mais peso do que as palavras.
Entrei para a faculdade de arquitetura logo de cara com 17 anos. Gostava muito do meu curso, sempre trabalhei muito rápido, achava os prazos de execução dos trabalhos longos, adorava as matérias de desenho e projeto.
Gostava tanto do ambiente de faculdade que “inventei” um jeito de voltar: aos 24 me tornei professor de desenho na UEMG, onde fiquei por 7 anos. Nada que ocupasse muito tempo, me dedicava a faculdade um dia por semana.

“Smile”, a cadeira que sorri, premiada com o iF Design em 2012.

Smile”, a cadeira que sorri, premiada com o iF Design em 2012.

4 – E na Faculdade de Arquitetura houve muitos sonhos, muitos planos?

Meu pai me inseriu na arquitetura logo de cara, já participava dos projetos desde o início. Ele gostava mais dos projetos mais técnicos, eu me dedicava aos mais plásticos – tenho muitos projetos executados em Belo Horizonte residenciais e comerciais.
Sempre fui muito objetivo e seguia as portas que se abriam para mim: nesse caso já tinha tudo em casa, não trabalhei em outro lugar com arquitetura.

5 – Durante sua formação, quais foram os arquitetos ou designers que mais te influenciaram? Brasileiros ou estrangeiros?

Designers que usam de simplicidade, objetividade, que têm desenhos sóbrios, como Jean Marie Massaud e Piero Lissoni. Não curto produtos muito esportivos, coloridos ou “de moda”.

“Bloo”: um abraço em couro. Todo conforto em cadeira de design simples e “no ponto”.

Bloo”: um abraço em couro. Todo conforto em cadeira de design simples e “no ponto”.

6 – Você era um arquiteto idealista, questionador, ou achava que estava tudo bem com a arquitetura no Brasil?

Acho que temos grandes arquitetos no Brasil. Estamos em um país multicultural, isso diversifica a produção, mas sinto um pouco a falta de uma arquitetura mais básica, mais enxuta, sem ostentação.
Acompanho muito a arquitetura residencial, que abriga a maioria dos meus produtos: gosto de linhas retas, minimalismo, espaços na medida, sem desperdício. Acompanho a produção nacional e internacional constantemente.

7 – Você conta que a mudança para o design se deu dentro da Doimo*. Como a ela chegou em sua vida?

Ao fazer o projeto arquitetônico de ampliação de uma fábrica fui convidado para desenhar produtos. Me pareceu uma atividade nova, mais rápida e menos influenciada por fatores externos como a arquitetura.

8 – E como foi essa transição para o design?

Comecei na fábrica só fazendo desenhos e protótipos: ainda trabalhava com arquitetura e dava aulas na UEMG. Com o tempo, a empresa foi comprada por um grupo italiano, aí o formato de trabalho mudou, eles queriam um diretor de arte que cuidasse de tudo, não só um designer.

Continua…

*Fundada em 1994, a Doimo do Brasil é uma joint venture ítalo-brasileira situada em Ribeirão das Neves, Minas Gerais, que decifra as tendências do design internacional, trazendo em seus produtos simplicidade, criatividade e tecnologia.

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